6.3.06

Bittersweet love

Eu tenho uma relação de amor e ódio com a Academia. Desde que ela deu um monte de prêmios pra Titanic (e eu tremi nas bases quando saiu Pearl Harbour) eu tenho essa implicância, e desde então grito a quatro ventos que é uma festa vendida, que só premia filme que custou caro, ou mais ainda, só premia filmes da Miramax.

Mesmo assim, adoro ver, é um ritual todos os anos. Eu e marido sentamos com nossas listinhas, vaiando e aplaudindo a tevê a cada erro ou acerto, competindo um com o outro, pipoca, sorvete, risadas.

Aí ano passado veio Million dollar baby, que não era da Miramax. Aí esse ano veio George Clooney com "Good night, and good luck" e eu pensei, poxa, talvez eu tenha sido dura demais com eles. Afinal, foi um filme quase feito entre amigos, o custo foi uma mixaria pra Hollywood, produção baratíssima. E o filme é realmente bom, ainda que eu soubesse que não ganharia o Oscar - nem de filme, nem de direção. Acertei. Eu sabia que ontem Mr. Clooney sairia de lá com um homenzinho dourado, mas sabia que não seria por seu filme.

Aliás, acertei todos os prêmios importantes, direção, ator, atriz, coadjuvantes, trilha, todos os que
envolviam filmes que eu vi. Impressionante, porque no ano passado eu apostei na Miramax e me ferrei (e Scorcese também). Acertei quase tudo, baseada no que costuma acontecer: por exemplo, eu sabia que o prêmio de melhor atriz ia pra Resse, ainda que ache que a Felicity merecia mais. Transamerica teve uma produção muito diferenciada e nenhuma divulgação aqui no Brasil, não chegou em telonas... quer dizer, agora deve entrar em algumas salas porque ganhou a indicação, mas só passou no Festival do Rio e olhe lá. A Felicity ganhou o Golden Globe, que é uma festa menor mas mais justa, na minha opinião. Mas eu adoro a festa do Oscar, gosto de ver as pessoas, as roupas, tudo. E minha grande decepção mesmo foi a categoria de melhor filme.

Crash é um filme bom, eu gostei, veria de novo. Mas é um tema batido, uma edição pra lá de já feita antes e um final meio óbvio (alguém lembrou de Magnólia e seu final redentor? Paul Thomas Anderson, sim, merecia um homenzinho dourado!), fora o elenco com vários atores fraquinhos que juntos chamam atenção (Sandra Bullock, Matt Dillon, Brendan Fraser). Eu nunca na vida diria que esse filme seria indicado ao Oscar, porque é um filme que não se destaca excepcionalmente em nada, até tem grandes atuações (não a do Matt Dillon, que acho que foi indicado por pena), mas não é um filme de Oscar.

Mesmo assim eu continuo assistindo, continuo torcendo pra que um dia as minhas preferências sejam as preferências de todos, pra que um roteiro de Woody Allen não perca no meio de quatro outros não tão bons...

15.2.06

COTIDIANO

(Inspirada por um email que um certo alguém me enviou)

Eduardo amava Flávia. Mas Eduardo achava que tinha um nariz grande demais, e por isso não se sentia no direito de amar ninguém. Sofria em silêncio a cada confissão de Flávia, cada novo namorado, cada novo dia. Até que descobriu que os seios de Flávia eram, na verdade, o resultado de uma plástica. Silicone. A moça teve, um dia, menos peitos que ele próprio. A partir desse dia, Eduardo passou a odiar Flávia. Apreciava apenas as belezas naturais. Um tempo depois, teve um tumor no nariz e acabou por reduzi-lo. Repensou seus valores. Mas Flávia, a essa altura, já tinha quadris mais definidos, coxas torneadas e disputava uma vaga no reality show do canal mais popular do país.

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Maria queria ser freira. Não bebia, não fumava e não fazia sexo. Rezava todas as noites e durante os dias trabalhava, de graça, porque tinha certeza de que Deus não tinha inventado o capitalismo. Até que conheceu Júlio e se deu conta de que nunca quis de verdade, ser freira. Esse era um sonho de sua mãe, Dinalva, que acreditava ter a vocação mas não a força de vontade. Maria e Júlio se casaram. Mas Júlio era jogador de futebol, foi descoberto por um "olheiro" e ficou rico. Quando ganhou o primiro grande campeonato, Júlio trocou Maria por Mary, norte-americana, ex-prostituta e agora escritora de romances de bolso dos mais vendidos. Maria virou protestante e nunca mais depilou as pernas.

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André era alto, ruivo, forte, olhos verdes e não era muito esperto. Foi por isso que quando Pedrinho, o prineiro filho de André com Alice (que era ruiva, alta, forte, tinha olhos verdes e um mestrado em Psicologia), nasceu com cabelos negros, extremamente lisos, e os olhos puxados, a esposa explicou com muita paciência que olhos puxados eram, como olhos verdes ou cabelos arruivados, uma questão de genes recessivos, e André sentiu orgulho da inteligência da esposa. Quando sua segunda filha, uma menina mulata de olhos verdes, nasceu, André resolveu pesquisar sobre genes recessivos, maravilhado que estava com o mundo e todas as coisas ao seu redor.
Morreu numa cela imunda, de solidão (disfarçada de pneumonia), três meses depois de matar Alice. E o que nenhum dos dois viveu para saber é que Felícia, a filha, tinha agora um caso com Genésio, seu pai verdadeiro, e os dois eram extremamente felizes.

6.2.06

E eu descobri que não se pode reclamar. Não, não se pode. Porque vai sempre ter alguém que reclama por menos, e você vai achar exagero, e alguém que reclama por mais, e te fará sentir culpado. Também acho que essa coisa de que cada um com seu próprio cansaço é balela. Eu já trabalhei menos e não ficava cansada assim. Reclamava um dia ou outro, mas nunca todo dia, como agora. Reclamava aqui e ali, mas nunca de tudo e nunca de todos. E quando cheguei ao ponto de reclamar de todos, foi quando *puf*, it hit me. Não é porque cada um aguenta o que pode. É porque sempre pode piorar.

1.2.06

Quem não lê, não pensa...

Corrijam-me se eu estiver errada: é recente isso de precisar ser assinante do UOL pra ler a Folha. Either way, colo aqui uma matéria da seção Cotidiano de hoje, que muito me emocionou:



Sem-teto faz biblioteca em prédio invadido
AFRA BALAZINA

Antes ocupado por entulho, esgoto e água de enchente, o subsolo do edifício Prestes Maia, 911, uma das principais favelas verticais da cidade de São Paulo, agora abriga uma biblioteca com cerca de 3.500 obras, entre livros, revistas, gibis e enciclopédias.

A "reforma" foi feita por um grupo de sem-teto que invadiu o local em 2002 e mora ali em condições precárias -com ligações clandestinas de água e luz, divisórias de madeiras e um banheiro para cada 15 famílias, em média.

A biblioteca dos sem-teto, que funciona desde dezembro, tem mais publicações do que as salas de leitura de colégios municipais, que são entregues com acervo inicial de 2.000 livros.

Entre os seus títulos, há obras de Machado de Assis, Mark Twain, Kafka, Balzac, Milan Kundera, Jorge Amado e Paulo Coelho e a coleção de Harry Potter.
O acervo do Prestes Maia foi formado com doações de uma ONG e de uma escola, mas também com publicações recolhidas no lixo. As prateleiras e os tapetes que decoram a biblioteca foram obtidos por doação.

O colégio Móbile foi um dos que deu obras aos sem-teto. A coordenadora de 1ª a 4ª série da escola, Eliana Tayano, diz que a doação de 600 livros é a primeira etapa de um projeto comunitário. "Nossa idéia é ir ao prédio para contar histórias", afirma.

O controle do empréstimo de livros na biblioteca é feito pelo catador Severino Manoel de Souza, 56, que tem um caderno para anotar as entradas e saídas.

Foi dele a idéia de fazer uma biblioteca no prédio. "Encontrava livros e não tinha coragem de mandar para a reciclagem", diz. Ele nunca freqüentou a escola e aprendeu a ler com "uma cartilha de ABC e a ajuda de um tio".

O devorador de livros do Prestes Maia é o ambulante Lamartine Brasiliano, 38, que lamenta que o lugar não tenha ainda obras do escritor Gabriel García Márquez.

Para incentivar a leitura, no subsolo está pichada uma frase do jornalista Paulo Francis: "Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo". Há desenhos de Bob Marley e Che Guevara nas paredes.

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A biblioteca atende às 468 famílias que moram no prédio, ligadas ao MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro). Mas os habitantes podem não ter tempo de usufruir do acervo: a PM se prepara para fazer a reintegração de posse, autorizada pela Justiça, no local. O despejo deve ocorrer a partir do dia 15 de fevereiro.

As famílias se dividem nos 20 andares de dois blocos em locais parecidos com barracos, separados por pedaços de madeira e com poucos móveis. Os corredores são coloridos por roupas penduradas, e os vidros das janelas, quebrados, foram substituídos por papelão. A maioria dos habitantes trabalha como ambulante ou faz bicos.

Porém, diferentemente da maioria da população de baixa renda da cidade, que não tem acesso à cultura, as famílias do Prestes Maia vão freqüentemente à Pinacoteca do Estado. Em 2005, os sem-teto integraram o Programa de Inclusão Sociocultural do museu, onde estiveram sete vezes.

(caso você tenha UOL, a matéria está aqui.)



Fiquei realmente emocionada com essa notícia. Parece bobo, mas pensar que essas pessoas que mal têm onde dormir se organizaram e, com a ajuda de ONGs, conseguiram montar uma biblioteca com doações e publicações encontradas no lixo é quase inacreditável.

Fiquei tentando imaginar o caderno de seu Severino (porque é assim que eu o chamaria), anotando a data em que eu retiraria um livro que um dia foi considerado descarte, e que agora estava ali, ao lado de outros livros doados, quase novo. Então eu olharia para a pichação com a frase de Paulo Francis (que seria em letra manuscrita, em vermelho ou azul), sorriria e passaria pelos tapetes doados a caminho da saída. Sem saber que, no dia da devolução, seu Severino talvez já não mais estivesse lá.

O pior defeito humano, eu diria, é o sentimento de posse. Ninguém queria o prédio; agora que leram no jornal e lembraram que ele existe, querem de volta. 468 famílias vão ficar com menos teto do que já (não) tinham. E pra quê? Pra deixarem o prédio vazio, só porque podem.

É, sr. Francis. Tem gente que realmente não lê.

16.1.06

Meu momento *Gi*

A Gi sempre posta as tirinhas do Calvin que ela gosta. Pois aqui vai a minha preferida.



O Calvin é demais.

10.1.06

Mais uma

Saiu no S&Y minha resenha (atenção: aquilo ali embaixo não é uma resenha!) sobre o filme Mean Creek.

Para ler, clique aqui.

5.1.06

O que mudou em 2005? - Parte III

Resolvi começar uma série de posts curtos *retrospectivos*, contando só o que 2005 teve de bom. Como blog aparece de baixo pra cima, oriente-se pelas partes. Ou leia na ordem que quiser, porque na verdade tanto faz, é tudo muito, muito, muito, muito bom.

Eu tenho a minha casa
Eu tenho uma casinha que é nossa e que tem a cozinha que eu queria, o escritório que eu queria e a cama que eu queria, e ela é toda a nossa cara, e nem mesmo a parede listrada da sala pode estragar isso. É a nossa casa, o nosso lar, é onde a gente se aninha e pra onde a gente volta depois do trabalho, das viagens e do cinema.

No filme Garden State, o mocinho bonito diz pra mocinha muito bonita (Zach Braff e Natalie Portman) que ele ainda não saiu da casa dos pais mas não se sente mais *em casa* lá. E é uma das cenas mais bonitas que eu vi nos últimos tempos, ele diz,


"You'll see when you move out; it just sort of happens one day. One day and it's just gone. And you can never get it back. It's like you get homesick for a place that doesn't exist. I mean, it's like this rite of passage, you know? You won't have this feeling again until you create a new idea of home for yourself, you know, for you kids, for the family you start, it's like a cycle or something. I miss the idea of it. Maybe that's all family really is. A group of people who miss the same imaginary place."

Isso é lindo. "Talvez uma família seja isso. Um grupo de pessoas que sentem saudade do mesmo lugar imaginário."

Eu passei alguns anos sentindo falta da minha casinha em Teresópolis, e mesmo quando mudei para a *minha casa*, e já não morava lá há anos, foi difícil ver o meu quarto se desfazendo. Mesmo que ele não fosse meu há tanto tempo, que fosse só os restos da menina que eu fui ali. A cama de corações, o armário de chave, o rack antiiiigo com a TV e o meu ursão branco que solta tanto pêlo que poucas vezes eu abracei. Não era saudade de nada disso, era saudade de querer ir pra casa logo, de me sentir à vontade, de ter um espaço cúbico que seja só seu, onde você pode se trancar e sumir, se quiser, onde a cama é mais macia e não existe travesseiro igual, aquele lugar para onde a gente bate os saltos dos sapatinhos vermelhos e deseja com força. Eu agora tenho isso de novo, e é melhor porque eu posso voltar sempre que eu quiser.

Mas a minha casinha atual não é a mesma sem ele, é como mágica, ela de repente ganha cor, calor, os monstros vão embora e os vizinhos não parecem tão barulhentos. Ele é quem faz daquele sétimo andar um lar. É ele que deixa tudo mais fácil e mais bonito. Ele é meu lar e meu Oz. There is no place like home. There is no place like home. There is no place like home.


O que mudou em 2005? - Parte II

Resolvi começar uma série de posts curtos *retrospectivos*, contando só o que 2005 teve de bom. Como blog aparece de baixo pra cima, oriente-se pelas partes. Ou leia na ordem que quiser, porque na verdade tanto faz, é tudo muito, muito, muito, muito bom.

Eu casei
Eu casei com o homem mais lindo, meigo, carinhoso, dedicado, lindo (já disse lindo?), dono do sorriso que me derrete, das pintinhas que eu amo, dos olhos que entregam qualquer coisa, dos cabelos de bebê que ele teima em dizer que não são como ele gostaria. Bom, nada é como a gente gostaria, exceto quando é, e ele é, exatamente como eu queria. Quer dizer, tem o ventilador ligado quando eu chego do trabalho e ele já saiu há horas, mas eu reclamo e já esqueci.

Eu casei com o meu príncipe encantado, o meu melhor amigo, a pessoa que eu mais admiro por tudo o que conseguiu e por ser tão bom no que gosta, por fazer tudo parecer tão fácil (eu odeio isso às vezes, porque pra mim nada é tão fácil), por fazer o que eu quero antes mesmo de eu pedir, e me mimar, e me dar colo quando eu preciso (e eu sempre preciso), e me respeitar, ser companheiro, ser uma pessoa tão especial e mais ainda, por achar que eu sou tudo isso de volta e dizer que me ama toda noite logo depois de apagar a luz.

O que mudou em 2005? - Parte I

Resolvi começar uma série de posts curtos *retrospectivos*, contando só o que 2005 teve de bom. Como blog aparece de baixo pra cima, oriente-se pelas partes. Ou leia na ordem que quiser, porque na verdade tanto faz, é tudo muito, muito, muito, muito bom.


Eu entrei no mestrado

Eu fiz novos amigos. Me tornei mais próxima de pessoas fantásticas. Ganhei uma orientadora que é uma mãezinha, que cuida de mim, que briga na hora certa, que é fofa e que - eu sei - vai querer me matar até o final desse ano, mas tudo bem porque eu sei que é pro meu bem. Eu descobri que tenho um dom especial de atrair pessoas boas e amigas para perto de mim. Eu descobri que tenho amigos que estão mais perto do que eu imagino. Eu me sinto mais segura e acho que nunca escrevi tão bem - academicamente falando.

Eu fiz minha primeira apresentação em um congresso, na verdade a primeira e a segunda, e a segunda foi em inglês. Eu odeio falar em público. Tudo bem que não era lá um púúúblico, só uma meia dúzia de pessoas. Mas eram pessoas estranhas ouvindo um "filho" meu, uma coisa que eu escrevi, uma hipótese minha. E todo mundo entendeu e gostou. Foram experiências maravilhosas.

3.1.06

EU PROMETO EM 2006

descansar mais e trabalhar menos
rir mais e reclamar menos
pesquisar mais e perguntar menos
questionar mais e sofrer menos

aprender um novo idioma
aprender a ter mais paciência
aprender a economizar

dormir

28.12.05

We need to hurt him without really hurting him.

No final de semana (sim, no dia de natal) vi Mean Creek, de Jacob Aaron Estes, filme de 2004 que só chegou aqui agora.

O filme conta com Rory Culkin, que finalmente aparece em um papel com mais de cinco falas, e outros meninos que você já viu em algum filme, mas não lembra qual. A verdade é que você nunca os viu, mas eles se parecem com meninos de filmes como esse, filmes de amigos descobrindo a adolescência e amadurecendo a partir de uma experiência "adulta". Filmes como Stand by me, de Rob Reiner, da época em que River Phoenix era vivo e fazia filmes bonitinhos como este e Running on empty (lembram da cena da família na cozinha cantando Fire and Rain? Uma fofura), também um romancezinho de formação mas com a presença dos pais e não dos amigos.

Enfim. Mean Creek é uma história bobinha mas que é uma graça de se ver, causa tensão mesmo quando a gente já sabe o que vai acontecer, como na clássica cena das sanguessugas causava tensão no filme de Reiner. O final deixa a desejar com seu tom redentor, mas o filme tem bons momentos.

E eu contaria mais, não fosse o sono e a vontade imensa de dormir por três dias seguidos, ou ao menos por três dias seguidos não ter nenhuma preocupação com trabalho, freela ou dinheiro, três dias de sushi e filme debaixo das cobertas, à meia luz, com abraço, cafuné e beijo com gosto de noite bem dormida. Seriam as minhas férias, aquelas que eu não tenho há três anos, porque não consigo ficar no mesmo emprego por um ano inteiro.

8.12.05

O dia 1º passou em branco. Mas não devia ter passado.

"Somente 7% dos casos de AIDS registrados em 1985 eram mulheres. Essa porcentagem cresceu para 23% em 1999. Cerca de 40% dessas mulheres foram infectadas através do sexo com um homem infectado com o HIV (quase sempre usuário de drogas injetáveis), e cerca de 27% foi infectada através do uso direto de drogas. Quase 80% das mulheres infectadas nos EUA são negras ou hispânicas, ainda que somente 25% da população feminina nos EUA sejam negras ou hispânicas."


(Fonte: AIDS.ORG


(Eu consigo pensar em umas cinco razões para essas estatísticas. Você não?)



Em 2004, uma pesquisa de abrangência nacional estimou que, no Brasil, cerca de 600 mil pessoas entre 15 e 49 anos de idade vivem com HIV e aids (61%). Este número está representado por cerca de 209 mil mulheres (35%) e 386 mil homens (65%). A mesma pesquisa mostra que quase 91% da população brasileira entre 15 e 54 anos citou a relação sexual como forma de transmissão do HIV, e que 94% citou o uso de preservativo como forma de prevenção da infecção. Os indicadores relacionados ao uso de preservativos mostram que aproximadamente 38% da população sexualmente ativa usou preservativo na última relação sexual, independentemente da parceria.

O país tem acumulado cerca de 170 mil óbitos por aids até dezembro de 2003. Entre 1993 e 2003, observou-se um aumento de cerca de cinco anos na idade mediana dos óbitos por aids, em ambos os sexos, refletindo um aumento na sobrevida dos pacientes.

(...)

No ano de 2004, estimou-se que cerca de 12.000 parturientes estavam infectadas pelo HIV+ no Brasil. Foram notificados ao Ministério da Saúde, de janeiro de 1983 a junho de 2004, 9122 casos de aids em menores de 13 anos de idade devido à transmissão vertical. Este número vem sendo reduzido ano a ano, com a adoção de medidas de prevenção.


(Fonte: Ministério da Saúde - DST/Aids


(Existe algo mais triste do que um bebê HIV positivo?)

Eu ia usar uma fitinha vermelha no dia 1º. Até que me dei conta de que não adianta usar a fitinha se você não faz nada a respeito. O que eu sei sobre a aids vem de números. E pessoas não são números, são carne e osso e sentimentos e dores e cansaço.

E às vezes eu penso se existem níveis e níveis. Eu devia ter mais pena da mulher que contrai o HIV do marido, mesmo as que o fazem conscientemente, do que do usuário de drogas injetáveis? Se você pensar bem, vai ver que lá no fundo nenhum dos dois têm culpa. Nenhum dos dois estava realmente consciente das conseqüências do que fazia. Entre o amor e a morte, entre a loucura e o vício, há uma tênue-invisível-miscroscópica linha.

Outro dia vi um episódio da série Queer as Folk em que um rapaz pedia para um soropositivo não usar camisinha durante a relação sexual, porque ele também queria ter o vírus. Tudo que acontece em grandes proporções no mundo pode gerar fanatismo, é impressionante. Era um jovem homem-bomba, literalmente. Queria morrer pela sua causa, representar uma geração, uma "fatia" da sociedade da qual ele queria também ter orgulho. Já faz tempo que a aids não é sinônimo de homossexualismo, mas só agora surgem os efeitos.

Isso tudo é muito triste. Se eu não faço muito, pelo menos penso a respeito. Já é mais do que muita gente faz.

29.11.05

Todo carnaval tem seu fim

Domingo eu reencontrei um amigo muito querido.
Domingo eu conheci pessoalmente Alexandre Inagaki.
Domingo eu tomei sorvete de melão e ganhei livros.

Hoje é terça, e eu estou cansada.

22.11.05

Refrões de bolero

Eu que falei "nem pensar"
Agora me arrependo, roendo as unhas
Frágeis testemunhas
De um crime sem perdão

Mas eu falei sem pensar
Coração na mão, como o refrão de um bolero
Eu fui sincero
Como não se pode ser

Um erro assim tão vulgar
Nos persegue a noite inteira
E, quando acaba a bebedeira,
Ele consegue nos achar

Num bar
Com um vinho barato
Um cigarro no cinzeiro,
E uma cara embriagada no espelho do banheiro


Ana era seu nome e três pares de mãos contavam seus anos. Não era exatamente ruiva, a pele com poucas sardas um pouco bronzeada, mas era evidente aquele dourado escuro nos cabelos. Grandes cachos, usava-os soltos, na altura do ombro. Uma fita os domava, o nó escondido atrás do pescoço, porque já não tinha idade para andar com lacinhos na cabeça. Abusava dos tons de verde nos vestidos e blusas, a calça sempre jeans, mas aquele verde, que realçava seus olhos, era constante. Ela era linda, deus, como ela era linda.

Eu caminhava pelas ruas de Botafogo e sempre a via, lá pelas oito da manhã, tomado café no mesmo lugar. Comecei a também freqüentar o tal recinto, umas duas mesas pra direita. Levava um jornal e pedia um café com leite, que depois de frio eu tomava correndo e ia pra escola. E todas as manhãs eu sonhava com os inúmeros mapas secretos que decifrariam aquela mulher de cabelos indomáveis e dona de um sorriso que nunca mais vi igual em minha vida.

Ela sabia que eu estava ali, já me reconhecia. Olhava com o canto dos olhos e dava um meio-sorriso, como se quisesse deixar claro que sabia da minha existência, porém com tal discrição que, caso um dia eu me aproximasse, poderia fingir que nunca antes havia me visto. Eu lia a mesma página do jornal por quarenta minutos, também deixando evidente a falta de interesse nas notícias do mundo. Meu interesse era claro e certo.

Numa dessas manhãs, eu em minha rotina usual, o mundo parado naquela folha do caderno de economia, Ana com um estonteante vestido verde, Ana com seus olhos de esmeralda e seus cabelos de ouro e suas sardas, ah aquelas sardas. Se levantou e veio em minha direção. O jornal estremeceu, gélido.

Perguntou as horas. Oito e trinta e cinco. Agradeceu. Me olhou lentamente, como se esperasse reação. Não reagi. Ana sorriu, um sorriso que até hoje me dói o peito lembrar, saiu pela porta e nunca mais voltou.

Vamos?

17.11.05

Hehe

An Imaginary Friend
Your score was 57 in Unbelievability!

You are your author's imaginary friend, but you're not really the type of character fiction writers should aim for.

You're more than a little out of the ordinary. You might have had some really crazy experiences, or have an unusual talent or two. Maybe you were even born with a tail. Whatever it is that makes you unique, it does the job well, because there are very few people like you on this planet.

A novel with you as a character would be a guilty pleasure to read. It would be considered intellectual junk food, of course, but damn fun to read nonetheless. Even if many people didn't want to pay actual money to read about you and your exploits, surely it would be checked out from the library at least... once every couple of months.





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16.11.05

Feriado no cinema

Aproveitamos o feriado para ir ao cinema. Vimos Lord of War e Elizabethtown.

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There are over 550 million firearms in worldwide circulation.
That's one firearm for every twelve people on the planet.
The only question is: How do we arm the other 11?


Andrew Niccol escreveu filmes como o sensível The Terminal ou o interessante Gattaca, que também dirigiu. Lord of War é um filme forte. Marido e eu concordamos que é uma ficção sobre o comércio de armas que consegue ser bem mais forte do que o documentário de Michael Moore. Não é o tipo de filme que me faz sair falante do cinema, mas dá muito o que pensar, tem uma ironia fina e diálogos extremamente inteligentes.

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You know the way people look at you as if it's the last time? I've started collecting these looks.

- I think I've been asleep most of my life.
- Me too.


Ok. Cameron Crowe escreveu/adaptou e dirigiu filmes como o belo Almost Famous (2000), o fofo Jerry Maguire (1996) e o cláááássico Singles (1992), que fez toda menina com predisposição ao rock pensar, "por quê diabos eu não nasci em Seattle?". Eu não li muito a respeito de Elizabethtown para não ir com muitas expectativas ao cinema. Mas - é claro - as expectativas estavam lá.

E o filme é lindo. Lindo. É realmente sobre olhares e sobre descobertas. Sobre os diferentes tipos de amor. Sobre a morte e sobre a vida que fica, e mais ainda, sobre a vida que começa.

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Então é isso.

A euforia de Gramado passou. Fiz uma boa apresentação, acho. Congresso internacional. Pouquíssima gente me assistiu. Mas gostei do meu texto. Nem sempre gosto.

14.11.05

O silêncio que precede o esporro (não era isso?)




Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

26.10.05

O cronista observador - Parte II

O sistema de ônibus urbano do Rio de Janeiro parece ter saído de um livro de Lewis Carroll. Cada dia que passa, me convenço mais disso.

Os motoristas parecem coelhos apressados que seguem o famoso motto "é-tarde-é-tarde-é-tarde"; estão sempre com pressa, para chegar, para voltar, para começar tudo de novo. Alguns chegam a não pegar os passageiros para alcançarem, o mais rápido possível, o *ponto final*, que, a esta altura, já se tornou uma metáfora para o pote de ouro no fim do arco-íris.

O ônibus que eu pego para ir para o trabalho todos os dias pela manhã conta com alguns motoristas que chegaram ao cúmulo de mudar suas rotas. Pegam atalhos para chegar mais rápido. Para chegar antes do ônibus que saiu na frente. Então, se você está caminhando tranqüilamente naquela outra rua onde não passam ônibus, não se espante se de repente se vir esperando o coelho apressado passar para atravessar a rua. E você que espera pelo ônibus no trajeto usual, tenha paciência: é aí que o coelho se transforma no sorridente gato, aquele que só aparece quando quer.

E nós? Nós somos as Alices, vendo tudo passar, nos sentindo grandes ou pequenas em meio ao nonsense carioca, entre chapeleiros loucos e camelôs ensandecidos, soldados de copas e policiais vendidos. A nossa própria *cidade das maravilhas*. Ou quase.

21.10.05

O cronista observador - Parte I

No meu prédio tem esse casal.

São bem velhinhos, ela mais do que ele.

Ele é ainda visivelmente saudável, sempre bem arrumado, sempre sorrindo.

Ela tem muita dificuldade para andar, não parece reconhecer as pessoas, a expressão é de perdida, como a expressão que as pessoas idosas com Alzheimer têm.

Não sei da condição financeira dos dois, mas sei que ela chega até o primeiro andar em uma cadeira de metal adaptada com rodinhas. E a entrada do prédio não tem rampa, então ela desce, com ajuda do marido, de pé as escadas.

E todos os dias eles descem e almoçam no restaurante a quilo que fica embaixo do prédio. Todos os dias, eu presenciei alguns, ele empurra a esposa em sua cadeira de metal (pesadíssima) até o elevador, depois até a beira da escada, ajuda ela a descer os poucos degraus e a andar os 10 metros até a portaria, descer o alto degrau de entrada e andar até o restaurante, que é realmente do lado da portaria.

Todos os dias ela geme do momento que levanta da cadeira ao momento de se sentar no restaurante, ouvi ele dizer, como se sentisse dor (e deve sentir), e ele continua sorrindo. E continua a repetir esta rotina dia após dia após dia. Como se os dois só tivessem um ao outro. É muito bonito e muito triste.

E eu fico pensando onde fica o limite entre a dedicação e o medo da perda. Se é esse o limite a ser traçado. Se caso a situação fosse inversa, o mesmo aconteceria. E se o restaurante acabar? E quando ele também não puder mais andar?

Se isso não é amor, mas muito amor mesmo, eu não sei o que é.

18.10.05

Umas listinhas pra passar o tempo

Os últimos cinco livros que li:

- As meninas da esquina, de Eliane Trindade;
- Un histoire du corps, de Jacques Le Goff;
- A nova dieta revolucionária do Dr. Atkins, do Dr. Atkins;
- Chorus of Mushrooms, de Hiromi Goto;
- A raisin in the sun, de Lorraine Hansberry;

Os cinco últimos filmes que vi:
- Sugar, de John Palmer;
- Reinas, de Manuel Gómez Pereira;
- Deixa ir, de Roberta Marques;
- Ae fond kiss, de Ken Loach;
- The pillow book, de Peter Greenaway (sim, só agora eu vi);

As últimas cinco coisas gostosas que comi antes começar a maravilhosa-dieta-do-Dr.-Atkins-que-de-maravilhosa-só-tem-o-nome:

- Pão (qualquer pão, ai, que saudade);
- Sorvete de flocos;
- Pizza de rúcula com tomate seco;
- Salada do Spoleto com massa;
- Arroz, feijão, farofa e batata-frita. Assim mesmo, tudo junto.

Eu queria comentar tudo, mas não dá tempo, não dá, não dá.

3.10.05

Da série "Momento Clarice"

(Uma história começada no horário de almoço, sem pensar muito)

Omnipresent phrase in my mind
Spoken words I've said one million times
Who are you to tell me it'll always be this way?
I close my eyes and I turn around
And leave it all behind

So free for the moment
Lost somewhere between the earth and the sky
So free for the moment
Lost because I wanna be lost
Don't try to find me


Always try to breeze through my life
Repetitious things I've done one million times
Who are you to tell me that I'll always be this way?
I close my eyes and I turn around
And leave it all behind


(The Martinis, Free)


Sentou-se à beira da cama e chorou. A mão direita, acompanhando os soluços, passou por um dos olhos, depois pelo outro, e então caiu, lentamente, acariciando o pescoço. Os lábios se tocavam como dois amantes, e seus dentes os mordiam, tentando interromper o choro.

Foi quando ela percebeu que nunca em sua vida se sentira tão bonita como naquele momento. Secou o rosto com a manga da camisa, que de tão velha perdera a elasticidade na gola e, sensualmente, exibia seu ombro esquerdo:

- Dane-se o mundo, agora eu só penso em mim.


(Talvez a história continue...)

28.9.05

Literatura Brasileira: mestrado, novos olhos

"Tinha que atravessar a longa rua deserta até alcançar a avenida, do fim da qual um ônibus emergiria cambaleando dentro da névoa, com as luzes da noite ainda acesas no farol. Ao vento de junho, o ato misterioso, autoritário e perfeito era erguer o braço - e já de longe o ônibus trêmulo começava a se deformar obedecendo à arrogância de seu corpo, representante de um poder supremo, de longe o ônibus começava a tornar-se incerto e vagaroso, vagaroso e avançando, cada vez mais concreto - até estacar no seu rosto em fumaça e calor, em calor e fumaça.

Então subia, séria como uma missionária, por causa dos operários no ônibus que "poderiam dizer-lhe alguma coisa". Aqueles homens que não eram mais rapazes. Mas também de rapazes tinha medo, medo também de meninos. Medo que lhe "dissessem alguma coisa", que a olhassem muito. Na gravidade da boca fechada havia a grande súplica: respeitassem-na. Mais que isso. Como se tivesse prestado voto, era obrigada a ser venerada, e, enquanto por dentro o coração batia de medo, também ela se venerava, ela a depositária de um ritmo. Se a olhavam ficava rígida e dolorosa. O que a poupava é que os homens não a viam. Embora alguma coisa nela, a medida que dezesseis anos se aproximava em fumaça e calor, alguma coisa estivesse intensamente surpreendida - e isso surpreendesse alguns homens. Como se alguém lhes tivesse tocado no ombro. Uma sombra talvez. No chão a enorme sombra de moça sem homem, cristalizável elemento incerto que fazia parte da monótona geometria das grandes cerimônias públicas. Como se lhes tivessem tocado no ombro. Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
"

Ah, Clarice...